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quarta-feira, 2 de setembro de 2009
A INFÃNCIA, O JOGO E A TV: AS RELAÇÕES POLÍTICAS E A EDUCAÇÃO
LAPIC- ECA –USP e UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI -UNP-RN
2-CONTEXTULAIZANDO A PESQUISA
3-O TEMPO E A INFANCIA
Entreevista para Imprensa Pernambucana
Paulo Alexandre cordeiro de vasconcelos -responde-
Como a criança desenvolve o gosto por jogos?
Jogar, brincar é um comportamento inato dos mamíferos como um todo.Portanto HUMANOS OU NÃO BRINCAM, JOGAM. Os estudos ligados a Zoologia- Etologia -cooperaram no entender o jogo humano, como a exemplo nos estudos de Piaget em que ele aponta para essas colaborações.
Jogar é uma atitude nos humanos mais complexa pois se dá nos planos além de motor, físico, sobretudo no campo das linguagens, dos signos, no patamar do dar sentido -brincar de dar sentido-; Daí sua complexidade Semiótica- ,ou seja, ao brincar estabelecemos além de uma presença física , corporal, entramos no campo do psíquico, do cognitivo e assim nos patamares da linguagem e da inteligência e da cognição mediante os signos.
2) A criança aprende muito mais rápido que os adultos (isto me parece um fato, estarei falando besteira)?). Como ela está inserida num mundo com novas tecnologias que mudam tão rapidamente?
A primeira e fundamental tecnologia humana é a própria inteligência, mediada pelos signos, esta é imbatível e sobre essa se montam todas a s demais, inclusive todas as linguagens.Assim ,portanto , a escrita é uma tecnologia.A criança ao brincar explora o mundo das linguagens e simultaneamente a inteligência, e suas estruturas complexas.Ela – a criança -tem uma facilidade maior no sentido de muitas vezes não respeitar códigos, canais e recriar tudo, portanto processando um universo criador.Ela não fica presa aos estereótipos, ele passa por cima , muitas vezes,pelo prazer de recriar, mexer, dar nova cara.
As tecnologias da informação e comunicação trazem novos esquemas complexos, novos códigos,novos degraus matemáticos e assim estabelece do mesmo modo relação lúdica com a criança.Ela tem um desejo de brincar de acertar e errar, sem preconceito de qualquer espécie,aliás,essa fonte de querer sempre inovar trata-se de uma questão moral , no sentido de mostrar que pode, que tem poder. Lembremo-nos dos hachker-observe se esta correto a palavra-.
O que não se pode é sempre substituir o concreto pelo sígnico, pelo representacional, caso das tecnologias da informação.Há que se dosar uma coisa e outra em seu tempo certo.Mas sem dúvida os jogos,os games na rede são materiais que desenvolvem a qualidade e estrutura da inteligência complexa e matemática da criança.
Os estudos de Sherry Turkle- A Vida no Ecrã – demonstram a facilidade da criança operar com a informática até por comparar a máquina a algo vivo, comparando com os estudos de Piaget , em que este afirmava que há uma tendência na criança em operar antropomorficamente em comparar o que é ativo ao que tem vida.Neste aspecto a inteligência da máquina lhe da uma magia de um outro próximo.
3) Qual a função do jogo no aprendizado infantil? Isto pode ser utilizado para os adultos (jogo como forma de aprender)?
Todo jogo é aprendizado,é laboratório de sentido, é experimentação .O jogo é uma estratégia ao desenvolvimento do conhecimento, da inteligência, no sentido de apreender a ligar, juntar , associar, a adaptar, é exatamente isso que Piaget.Wallon e Vygotsky viram no jogo.Uma função estratégica vital para o desenvolvimento e da aprendizagem, da mesma forma que os adultos.Funcionamos também testando e nisso temos o preconceito, por sermos adultos, de dizer que jogamos.Todos nós humanos jogamos complexamente, até na guerra, nos sonhos, na competitividade do dia a dia.
No próprio ensino superior, a distancia jogamos na escala de acerto e erro, na busca de sentido, do conceito, da meta.O jogo é sobretudo isso busca de sentido.O que é o hipertexto, senão um rizoma que se busca elastecer para a construção de informação, comunicação e saberes?O problema é como democratizar esta tecnologia, no sentido de favorecer maior número de pessoas que é tão restrito ainda no mundo e no Brasil em especial.
Ainda não se brincou na Escola com o rádio, com a tv , com o cinema, com o vídeo, muitas vezes nem no ensino superior , salvo as escolas de comunicação e olhe lá. Essas tecnologias ainda não estão verdadeiramente democratizadas, que dirá a informática, a rede mundial, que requer aparatos caros, bem como para sua manutenção e atualização, sem se falar no impasse lingüístico, das diferenças, do inglês, do chinês , do russo, do alemão etc....Ainda falta muito para uma democracia do jogo de linguagens e tecnologias, mas todos nós queremos isso.
4) Como foi a pesquisa para o seu livro?
Meu livro é uma síntese do meu Mestrado , na ECA-1993, e ele partiu das minhas experiências com crianças do Recife- Pe, de – Campina Grande -PB e de São Paulo.
Parti do fato que crianças analfabetas brincavam, criavam brinquedos complexos, que exigia um conhecimento básico, concreto da Física, da Química, por exemplo, no sentido de saber se apropriar de materiais e de suas resistências pra aglutinação ,como juntar metal e madeira, madeira e plástico etc...E com esta indagação percebi que o brincar ensina, faz uma aprendizagem e , mais com prazer, ás vezes , claro com tensões, mas no superar esta última produz alívio prazer.
Assim caminhei para entender Piaget e outros interacionistas –Vygotsky- , ou os não interacionistas, como a Psicanálise –Freud e Lacan,que me explicassem o jogo como motivador da aprendizagem, do conhecimento, do sujeito e da construção da identidade e ,nesse sentido, o livro mostra este meu trajeto, inclusive entendendo o que vem a ser infância, e com ela, como se estimula ou se adentra ao jogo.Da mesma forma como a Psicologia e a Pedagogia caminharam para capturar o jogo como algo de valor para a construção do conhecimento e do aprendizado.
5) A criança pode participar de Ensino a Distância? Explico: no Brasil, a cultura de EAD está implementada em adultos, mas nos EUA se fala em EAD para crianças. Isto é possível?
Os estudos no geral, com foco neste tema, as pesquisas no Brasil ainda são incipientes, mesmo sem esquecer as iniciativas paulistas, cariocas, gaúchas mineiras, mato grossense baianas,pernambucanas ,paraibanas cearenses, e tantas outras sobretudo ligadas às universidades públicas , contudo não denotam a eficácia e diagnóstico de uma aprendizagem a distancia com detalhes para a faixa infanto-juvenil.
Quanto à área de adultos estamos caminhando ainda .As empresas privadas têm progredido bastante, as universidades, como vocês, tem dado longos passos, mas nada em especial sobre a criança.A educação brasileira não anda bem no plano infanto-juvenil, que dirá com alfabetização digital.Refiro-me sobretudo ao ensino público.
Há alguns estudos americanos ligados a informática e a rede mundial com algumas críticas ao ensino , informática e a rede,nas pessoas de Sherry Turkle e Alison Amstrong entre outros, afora alguns franceses e espanhóis-UNED-e a Cátedra da Unesco de Educação a distancia-CUED e portugueses –Da Universidade Nova Lisboa, os ingleses .Na América Latina ainda é muito iniciante.
a pesquisa neste foco .
A Argentina vinha com planos sérios sobre este foco , mas diante da sua crise alguns percalços vieram a obstruir o desenvolvimento.Penso que precisamos tratar o caso com muita delicadeza, até porque como falei, a criança precisa até o término da quarta série,ao menos, do ensino fundamental presencial, ate porque, do ponto de vista construtivista isso é fundamental.A interatividade presencial é absolutamente sem concorrência. A presença é presença , tridimensionalmente e do ponto de vista ´perceptivo cognitivo .Isto é inquestionável. A didática aplicada precisa participar de modo ativo para efeito de uma ação crítica nesta área, especialmente na conjunção com a Informática, enfim com as Ciências Cognitivas, como bloco, especialmente aqueles que atuam tutorialmente em comunidades
A dispersão na infância e juventude é grande, e o modo presencial , claro, de qualidade é imbatível, permite um melhor controle didático dessa dispersão assim como aumenta o contato físico e afetivo, que é fundamental nesta faixa etária.Apreender inicialmente é afetar este sujeito de modo mais profundo possível e com perspectivas de aproximação afetiva, de sentimento de corporeidade.
Algumas escolas do ensino fundamental particular já adotam a estratégia via web para efeito de tarefas de casa e assessoria a criança no geral curricular e, claro,o jogo o brincar é profundamente explorado nesta via de uso, ou uma linguagem aglutinada a uma discursividade e textualidades lúdicas..E nessa mesma via é preciso pensar as diferenças sociais infanto-juvenis para que se possa mesclar um conteúdo e seu lúdico assim precisamos selecionar: ferramentas, brownsers , mais adaptados, assim como um especialista em interatividade - cognitiva.
Temos buscado trabalhar tais questões no Curso de Pedagogia da Universidade Anhembi –Morumbi, na habilitação de Tecnologia Educacional.O grande problema é a pesquisa, o tempo , que os alunos não dispõem para aprofundar as questões críticas da pesquisa, tendo como contraponto à velocidade do tempo, na informação/comunicação que hoje voa, e portanto exige uma prontidão permanente nas pesquisas.Todavia temos tido alguns resultados positivados , com destaque pela contribuição de alunos da universidade -com as escolas públicas.
Em suma , creio que como modo complementar à ação educativa a distancia é boa ferramenta, mas sempre sublinhando - como caráter complementar para efeito de jovens em formação fundamental.
6) O mundo infantil de hoje é muito diferente daquele que Piaget estudou? Reflita um pouco sobre este tema?
O tempo, os sistemas sociais alteraram-se, os sistemas ecológicos mudaram, nós mudamos, e assim a infância e juventude mudaram.O tempo cognitivo alterou-se, os espaços , tempos , modos de informação e comunicação mudaram .Mas a cognição como estrutura permanece imbricada nos mesmos paradigmas interacionista cognitivos, outras variáveis , claro mudaram, como as citei aqui.
Creio que Piaget não se assustaria com o que vivemos, ele fez prognósticos sobre isso , nos deu pistas para este Ciberespaço, mediado pela inteligência.Os estudos de Piaget, Chomsky sobre os paradigmas das linguagens, entre outros autores nos orientaram sobre a inteligência artificial.Contudo o resultado da combinatória capitalismo e investimentos tecnológicos da informação e comunicação alterou muito a nós.
Os jogos mudaram, a sociedade de consumo , inverteu os valores humanos, jogar hoje é também participar do consumo, não o consumo de sobrevivência,mas aquele de mero prazer ostentatório,prodigalizados pela mídia e publicidade.O jovem joga um jogo do tempo capitalista, da angústia do mercado, joga economicamente sempre e o tempo todo para poder se ver como o estereótipo que a sociedade de consumo impôs.
O tempo foi recortado, sobreposto há outros tempos, o lazer misturou-se ao não lazer,nos perdemos nisso.O tempo de cognição é construído sobre a égide do valor econômico, aprende-se hoje para ganhar e ganhar economicamente, não há uma contemplação ao ganhar humano mais intenso como antes a Filosofia humanista apregoou.
Há um tempo de cognição que pede contemplação, no sentido de tempo para depurar, e exige-se do jovem muito, e mais ele ficou mais submetido ao despudor do capital, da mecânica do mesmo, desde o nascimento e todo seu percurso de vida.O mundo globalizado é o mundo do capital dos poderosos -do capital- e com eles as suas estratégias inclusive as tecnológicas.
7) Por fim, qual o conselho que o senhor dá para os pais construírem uma educação sadia para seus filhos?
Acho que o bom senso é sempre o mestre, jogar com os filhos é acompanhar, ou tentar acompanhar, despojar-se para re-aprender os novos jogos, é observar novas tipologias de jogo, do brincar é adentrar a esse imaginário humano que sempre estamos em completo fervilhamento. São perceber novas regras, novos espaços, novos conteúdos, novas tendências. Penso que partilhar dos novos jogos como os dos games, das proliferações das lan houses, dos tipos de competição a que se propõe, de discutir comportamentos, desde a coleção de cartões telefônicos,cds,mp3, as coleções de figurinhas do desenho animado da tv, dos encontros lúdicos das lanchonetes , da escola, enfim acompanhar, e isso é tarefa também nossa de educadores , entender o que se joga entre os jovens para melhor partilhar da vida.
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A RECEPÇÃO DA PUBLICIDADE E O IMAGINÁRIO INFANTIL
PAULO ALEXANDRE CORDEIRO DE VASCONCELOS
Professor da Universidade Anhembi-Morumbi
Doutor em Ciências da Comunicação
Para iniciar
Esta comunicação pretende discutir as relações entre infância/adolescente e consumo/publicidade. Pretendo aqui apontar alguns vieses através dos quais se dá a relação entre as variáveis apontadas, culminando por uma ação publicitária que busca afetar a criança e o adolescente para o consumo, tendo em vista o escopo teórico que aqui nos guiará, assim como numa pesquisa junto às agências publicitárias e as crianças, a ser desenvolvida no próximo semestre.
O homem e a criança burguesa
A história do homem burguês encontra-se transversada pela história da família e da criança. O perfil do homem burguês se caracteriza, entre outros fatos, pela busca da individualidade, o patrimônio, através do trabalho e o estabelecimento de uma política de produção e consumo.
A família se constitui como pedra fundamental que busca realizar estas três características. Junto a isso, a família produz um processo de adultização infantil, para garantir o espaço da sucessão paterna e, automaticamente, a do gerenciamento do patrimônio familiar. Adultizar é também garantir a posse dos bens familiares burgueses e promover a continuidade do capital. A infância não é um momento apenas de formação, mas de adestramento para as perspectivas ideológicas da família. O consumo é a ferramenta que permite diferenciá-los e inseri-los no mundo do poder.
Ao longo do trajeto histórico do aparecimento da burguesia até nossos dias, percebe-se a distinção proposta à criança no sentido de fazê-la não só reprodutora da família como reprodutora da atualidade social como um todo e, neste sentido, a mídia cumpre o seu papel.
A mídia se constitui como projeto comunicacional das massas almejando, ao mesmo tempo, e sobretudo, a produção e o consumo, base sobre a qual garante vida e permanência.
Ela constitui ao mesmo tempo um grande Outro sob o qual alimenta o imaginário coletivo. Este é pesquisado, por vezes elastecido, para atender aos desígnios a que a mídia se propõe, seja para a produção de uma grade de programação, seja para o enfoque de notícias, seja para o suporte do mundo publicitário.
A mídia como um todo não arreda seus pés do projeto que estrutura a trama comunicacional, que é o da simulação ou da hiper-simulação, no desejo de fisgar os sujeitos para a atenção ao seu discurso.
Os recursos para tal trama – que se destacam em tempos de pós-modernidade – passam pela prevalência da imagem, mesmo em periódicos impressos, em movimento e cor, ou seja, na criação de um mundo ágil que busca evidenciar o mágico, o fantasioso, mas sobretudo o desejável, enquanto novo. No que pese isto, agregam-se aqui arquétipos míticos que elaboram o bom, o mau, o herói e o espaço simulado da aventura.
A publicidade se destaca, neste sentido, por sustentar o projeto midiático, em nível econômico, e simula dar conta de uma produção cultural, mesmo que esta esteja a serviço do aliciamento ao consumo, não importando os jogos simulacionais da pretensa cultura com a qual diz se relacionar.
Entre seus novos desafios encontra-se a criança/adolescente, como a mais nova meta para o fisgamento ao consumo. Esta faixa etária, nas classes abastadas, compram, aliciam os adultos para a compra e ainda tem uma imagem que vende, vende para o mítico, carinho e amor.
Os modelos de infância
Não há o que discutir em relação à idéia de que a infância foi uma criação da idade moderna, no sentido de criar uma aura em torno dessa faixa etária, que confunde a natureza humana com algo de eterno, puro, feliz e ingênuo.
Caligaris, em seu recente artigo O Reino Encantado Chega ao Fim, nos remete a pensar nessa ideologia criada na Modernidade, em que se estrangula a infância ao longo do trajeto histórico das sociedades industrializadas, ou em vias de industrialização.
“A criança é uma caricatura da felicidade impossível: vestida de feliz, isenta das fadigas do sexo e do trabalho, idealmente despreocupada...”(1)
Indaga e esclarece, o mesmo autor, se na verdade o amor que inventamos na modernidade permanece, ou não se trata de um mito criado que se esgarça nos meandros da perversidade do capitalismo industrial e que não deu conta de acompanhar o mesmo mito da infância.
“A infância talvez tenha sido a mais duradoura das utopias concebidas pela modernidade. Com tantos outros ideais imaginados nos últimos 200 anos, o mundo maravilhoso das crianças também entra em crise na era pós-industrial e pós-moderna...”(2)
O aparecimento do processo de adultização nos últimos anos age como o contraponto ou a negação do mito, que criamos, de uma infância que se recobria da aura de congelamento.
O desenvolvimento da mercadoria, enquanto objeto de desejo extremado na sociedade tecnológica, aperfeiçoa estratégias para criar novos consumidores e atinge a infância, contradizendo o mito da pureza e da incapacidade em face das delícias do consumo.
Invadida pelo consumo, parte da infância sacia seus desejos de consumista e, de outro lado, uma outra infância fica excluída desse aspecto. Nasce um imaginário de vitimização, de exclusão – marginalização.
Lasch, ao contemplar tal questão, diz:
“A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito do especular faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada pelas coisas. O consumidor vive rodeado não apenas de coisas como fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos....”(3)
A tecnologia industrial, além de diversificar os objetos do desejo, produziu a fantasia e especializou-se numa indústria cultural que, para a grande maioria da população infantil, solapou o universo lúdico simples – tosco-artesanal – e não deu, em troca, nada senão a produção de uma vitimização e de marginalidade.
Com a destruição dos espaços lúdicos e públicos – o quintal, a praça, os folguedos –, tudo gira em torno do novo objeto lúdico industrial que faz a manutenção do cultural. Disto resulta um confinamento geral da infância, tendência, aliás, anterior à modernidade, como bem aponta H. Arendt, quando a sociedade, a partir da idade média, descamba para uma privatização da vida social; à medida em que a burguesia ascende ao comércio, a produção de bens ocupa o poder hegemônico. Com isso, assegura a autora que a sociedade passará “a um híbrido no qual os interesses privados ganham uma importância pública”(4).
Os grandes ajuntamentos empobrecidos a serviço da (mão de obra) indústria, e sem o tempo para o exercício da tutela, indiretamente substabelecem a tutela dos menores ao estado, que desprovido de especialidade, entrega, quando pode, ao particular ou ao desgastado serviço da Escola Pública.
Disto resulta, como aponta Perroti:
“Neste estrangulamento do político, de redução crescente do espaço público e de sua transformação em espaço social privado, governado por proprietários “que não buscam senão aumentar as próprias fortunas”, ocorrerão mudanças fundamentais nas formas de conceber e organizar a infância. Como não poderia deixar de ser, a privatização das relações sociais alcança a vida infantil, fazendo também que crianças e jovens se distanciem cada vez mais do que resta de vida pública, à medida que a ordem burguesa vai-se constituindo. Com a burguesia, pouco a pouco e à medida que a urbanização evolui, a infância passa a viver confinada nos espaços propriamente privados – os espaços domésticos – ou nesses híbridos ao mesmo tempo sociais e privados – os espaços confinados especializados (creches, internatos, creches e outros).”(5)
Estratificada a infância pelo confinamento do sócio-econômico, ela é vítima mais uma vez de um novo confinamento – o cultural.
A Escola pública segrega o menor de baixa renda do contato de outros estamentos sociais – classe média e alta –, havendo com isso uma perda de circulação da cultura que não interage com outro grupo e cultura. A Escola passa então pelo confinamento da cultura, resultado direto da perda das diversidades.
A acessibilidade à cultura passa a ser praticada em parte e se dá, por quase todas as classes sociais, dá sobretudo em função da mídia. Dentro de seu padrão particularizado, destaca-se a reinterpretação do cultural através da publicidade.
O acesso à cultura via mídia se dá dentro daquilo que ela elege como sendo viável ou não no seu projeto maior que é o consumo.
Infância / desenvolvimento / imaginário
“... imaginação e realidade estão também relacionadas, na medida em que é possível criar uma obra, um objeto ou um instrumento, que não corresponde a nenhum objeto real. Assim a experiência – ampliada pela imaginação – se materializa num produto.”(6)
A imaginação, advinda do subjetivo, mesclada pelas influências do social, retorna ao social em forma de produto da criação, atestando realidade imaginária e objetividade social.
“... Imaginação e realidade estão sempre relacionadas, na medida em que é possível criar uma obra, um objeto ou um instrumento que não corresponde a nenhum objeto real. Assim, a experiência – ampliada pela imaginação – se materializa num produto. E essa obra criada extrapola o autor.”(7)
A força da relação – realidade/imaginário – se dá em função do processo semiótico, que assim age como verdadeiro catalisador desse duplo. O signo e os instrumentos (objetos), na obra de Vygotsky, constituem um dos conceitos fundamentais para a compreensão dos sistemas de linguagem, da consciência e mesmo da imaginação.
Os signos e os instrumentos correspondem à forma como o indivíduo se relaciona com a natureza e a transforma. Esse dado de transformação e mudança é fundamental na obra de Vygotsky, pois denuncia o caráter histórico dos fenômenos culturais. Daí aquele autor admitir que a imaginação não é isolável no nível do subjetivo, particular, mas de um social, coletivo que transita amalgamado pelos mesmos.
No que diz respeito à questão do real e do imaginário no constructo sócio-histórico, é fundamental que se perceba que a ordem do real é submetida pela ordem da representação do imaginário, ou como ainda se expressa Angel Pino: “... Real e imaginário opõem-se não em termos de verdade e ilusão, como fazem o idealismo e o realismo empiricista, uma vez que o real não se apresenta de forma direta e imediata, mas sua representação, a qual é uma formação imaginária...”(8).
Pino destaca ainda, ao discutir a mediação semiótica em Vygotsky, “a questão filosófica e psicológica, do acesso ao real”. Na verdade, esta questão envolve o caráter da realidade, que se envolve numa teia ambígua, pois temos realidade, como expressão do real e realidade, como exterioridade do real. Constituem-se de fato as três ordens: o simbólico, o real e o imaginário, que se entrelaçam. É pois o real aquilo que se apresenta sob a forma de produção semiótica do símbolo e que relata um imaginário.
Tomemos agora um novo aporte do imaginário e suas correlações com a fantasia, como propõe Jurandir Freire Costa:
“o termo imaginário é a substantificação de uma atividade psíquica, a imaginação. Imaginação por sua vez, é a derivação latina da fantasia em grego. No pensamento grego, fundamentalmente em Aristóteles, a questão da phantasia pertencia ao quadro da gnoseologia. Phantasia deriva do substantivo phaôs, que significa brilhar, dar a luz, especialmente referido aos corpos celestes. Desta última palavra deriva dois verbos phainô (mostrar), com sua freqüente forma intermediária phainomai (aparecer) e phantazô (tornar visível, aparecer, mostrar-se a si mesmo), donde os nomes verbais phantasia e phantasma. Em latim, imaginativo vem do verbo imaginari, que por sua vez deriva do substantivo imago, contração de imitago. Imitago vem do verbo imitari, cujo radical im é a mesma de similis, e que significa imitação, semelhança”(9)
Desta especulação etimólogica percebe-se, contido em imaginar: mostrar, aparecer, tornar visível, imitar, fantasiar. Ora, habitamos então na aparência da linguagem, da representação e da imaginação, ou seja, o homem só conhece a essência pela aparência.(10)
A aparência é aquilo que podemos resgatar pela imaginação, representada pelas linguagem e percepção.
“O que nos é dado primeiramente é a aparência. Quando é combinada com a consciência é chamada percepção. Agora, toda aparência contém uma multiplicidade, donde diferentes percepções ocorrem na mente separadamente e singularmente. Uma combinação destas aparências é exigida de uma forma que elas não podem ter nos sentidos. Deve então existir em nós uma faculdade ativa que opera a síntese desta multiplicidade. A esta faculdade eu dou o nome de imaginação.”(11)
Por fim, Hume chega a mostrar a relação entre o imaginário e o social: “nenhuma idéia pode existir na imaginação sem ter sido causada por uma impressão prévia...”(12). Ora, poderei até deformar o percebido, do social, mas sua fonte são ele e minha subjetividade filtrante.
Nesse sentido, a educação informal promovida pela mídia é fomentadora do real-imaginário e do simbólico, suscetível de reinterpretações do real, buscando nos filigranas do imaginário e do simbólico como é possível tocar o sujeito.
A pesquisa e hipóteses
A publicidade se constitui, ao longo da história burguesa, mais destacadamente no pós-Guerra, em um dos seus projetos de maior ascendência, que permitiu a desenvoltura da produção, do consumo portanto, da elevação ao máximo do projeto burguês, que é a sociedade industrial de consumo.
O consumo estabeleceu-se definitivamente na sociedade, impondo inclusive condições para aferição de status e modus vivendi. A criança neste lusco e fusco foi tragada.
Isso posto, algumas questões, para nós, tornam-se hipóteses, as quais queremos verificar junto à nossa pesquisa, tendo em vista as agências publicitárias e o público infantil:
· como é o perfil da criança visto pelas agências?
· como a criança é vista do ponto de vista da sexualidade?
· quais mitos e arquétipos mais generalizados pelas crianças?
· como se constitui a participação da criança e do adolescente na fatia do consumo em geral?
· dentro dos produtos a serem veiculados para a criança quais os que se constituem de maior facilidade?
· a criança influencia na decisão de compra dos produtos do adulto?
· há contradição na publicidade, face ao Estatuto da Criança e do Adolescente no uso da criança na Publicidade?
Referências bibliográficas
1. CONTARDO, C. – O reino encantado chega ao fim. In: A Folha de São Paulo, Caderno Mais, Julho de 1995.
2. Idem.
3. LASCH, C. – O mínimo eu. São Paulo, Brasiliense, 1986. p. 87
4. ARENDT, H. – A condição humana. Forense-Universitária-Edusp, 1981.
5. PERROTI, E. – Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo, Summus,1990. p. 113
6. KRAMER, S. – Por entre as pedras: arma e sonho na escola. São Paulo, Ática, 1993. p. 78
7. Idem. p. 81
8. PINO, A. – O Conceito de mediação semiótica em Vygotsky e seu papel na explicação do psiquismo humano. Caderno Sedes 24. São Paulo, Cortez, 1991.
9. Manzedo apud COSTA, J. F. – Psicanálise e contexto cultural. São Paulo, Brasiliense, 1989.
10. Idem.
11. Hume apud COSTA, J. F. – op. cit.
12. Idem.
Bibliografia complementar
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DURANDIN, Guy – La mentira en la propaganda política y en la piblicidad. Barcelona, Ediciones Paidós, 1995.
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