
Estou no aeroporto de Khajuraho, noroeste da índia, esperando o voo para a cidade sagrada de Varanasi, antiga Benares. Acabo de sair do complexo de 22 templos construído por volta do ano 1.000 d.c. em homenagem a Brahma, Visnhu e Shiva, a trindade hindu da conservação, destruição e criação. Declarado patrimônio histórico mundial pela Unesco, Khajuraho é um centro turístico regional que atrai muitas famílias, interessadas na formação religiosa de seus filhos. Estilos budista, islâmico e hindu frequentemente convivem na composição de símbolos e estratégias arquitetônicas. O ritual de visitação é relativamente simples: retirar os sapatos, pousar a mão sobre a pedra frontal, subir as escadas, entrar no templo com as mãos em posição de “namastê” e andar no sentido horário, dentro e fora do templo. Meditação opcional, assim como palavras do guardião.
A família feliz e culta pode então apreciar as 84 figuras do kama sutra, incluindo as clássicas 69 e 71, as básicas ou as mais complexas e ginásticas, envolvendo ajuda e suporte de duas ou mais pessoas, sexo entre homens ou entre mulheres, masturbação, zoofilia, felação e sodomia, bem como a interveniência de deuses, ensinamentos e técnicas para manter ou prolongar a ereção. Tudo isso não passa de 10% do conjunto de esculturas disponíveis e não se encontra em uma ala separada, mas “entre outras coisas”, junto com representações ligadas a guerra, à condução política dos rajás e marajás, os tipos e profissões humanas, bem como as inúmeras regências artísticas e as 33 classes de deuses hinduístas.
Enquanto as famílias indianas levam seus filhos para Khajuraho, há pelo menos mil anos, nós no Brasil do retrocesso inventamos de discutir “ideologia de gênero” e “pedofilia de museu”. A mesma Índia que pode servir de modelo para a educação sexual das crianças poderia ser descrita como um paradigma de iniquidade entre gêneros. Basta lembrar da terrível opressão que o sistema hindu de castas impõe sobre as mulheres, a criminalização, até recentemente, da sodomia e da homossexualidade, sem falar na endêmica cultura do estupro.

Infelizmente relações de gênero equitativas podem conviver com experiências empobrecidas ou inibidas diante do prazer. Relações injustas e opressivas entre gêneros podem também perpetuar relações, grupos ou comunidades “tóxicas” do ponto de vista da economia do prazer. Via de regra a equação entre sexo e poder, ainda que variando muito em sua composição, quase sempre atua como uma espécie de sismógrafo de avanços e retrocessos políticos. Não é coincidência que, historicamente, regimes ditatórias tenham promovido a perseguição a minorias de gênero e a práticas sexuais interpretadas como “divergentes”. Foi assim que, desde o início do governo Temer, o tema da corrupção institucional passou a se deslocar para o tema da caçada moral da corrupção sexual. Confirma-se assim o que Freud chamou da dupla moral presente no fulcro de nossa relação com a sexualidade. Julgamos aqueles a quem consideramos pertencer a nosso grupo, família ou classe de modo diferente da forma através da qual julgamos os outros a quem não atribuímos esse pertencimento. Mas além disso criamos justificativas morais para essa diferença de racionalidade em nosso julgamento atribuindo ao outro costumes sexuais intoleráveis, excessos pornográficos e ameaças a “nossas” crianças e mulheres. Por exemplo: 15% da população, potencialmente eleitora de Jair Bolsonaro em nome da “moral e dos bons costumes”, se mostra curiosamente indiferente ao fato do mesmo candidato ter declarado, em pleno Congresso Nacional, para uma deputada: “só não te estupro porque você não merece”.
É possível que isso ajude a entender porque a mesma regra anticorrupção foi empregada de forma tão diferente, por exemplo, quando se tratou de afastar Dilma mas de manter Temer, ou ainda quando se trata de julgar Lula ou de Aécio. Recentemente, Leonardo Sakamoto chamou nossa atenção para a ridícula diferença entre a repercussão do caso da nudez do MAM (2 milhões de compartilhamentos) e a relativa indiferença ao fato de que um estuprador condenado esteja prestes a assumir uma cadeira de deputado federal (60 mil compartilhamentos). A lei pode ser a mesma, mas sua aplicação é seletivamente diferencial. O fato é óbvio, conhecido e cristalino na cultura brasileira, mas quero chamar a atenção para a conexão entre ele e nossa moralidade sexual.
Estaríamos diante de um caso de moral dupla quando elogiamos os passeios familiares por Khajuraho e criticamos a cultura do estupro na Índia? A educação sexual das crianças é uma perspectiva entre outras de nossas disposições diante da cultura, mas em certas circunstâncias políticas ela assume um valor estratégico autonomizando-se de seu contexto real. “Proteger nossas crianças e mulheres” é o grito mais simples para criar perigo e disseminar o medo como afeto político. Desta forma, a generalização de um princípio é usada para inverter o sentido do caso particular: em nome da proteção e segurança sancionamos a opressão sexual e de gênero. Chegamos assim a uma nova aplicação cínica da moral dupla: cale a boca sobre Khajuraho, silencie a exposição “Queermuseu” e censure a nudez museológica – afinal falar de sexualidade é perigoso, desvia nossas crianças da moral sexual civilizada que queremos para elas. Ora, esta moral sexual ignorante é justamente a que tolera o estupro e a violência de gênero. Direita e esquerda chegam assim a um abraço kundalínico em torno da mesma enunciação repressiva. O esquerdomacho e a dominatrix feminista juntos finalmente.