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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Férias, telas e infância: hora de assumir o controle

 




Férias, telas e infância: hora de assumir o controle

Por Larissa Capito*


As férias escolares costumam ser um período aguardado com expectativa pelas crianças e, muitas vezes, vivido com ambivalência pelos adultos. De um lado, o desejo de descanso, convivência e leveza; de outro, o desafio de reorganizar a rotina, especialmente quando o trabalho segue ativo. Nesse cenário, é comum que as telas (celulares, videogames, TV) assumam um papel central no dia a dia infantil. 

Não falo aqui do uso pontual da tecnologia, que faz parte da nossa realidade e pode, sim, ter espaço na infância. A preocupação surge quando as telas deixam de ser um recurso ocasional e passam a estruturar grande parte do tempo da criança durante as férias, criando hábitos que se consolidam silenciosamente e que, muitas vezes, só se tornam visíveis quando a rotina escolar é retomada. 

Como psicóloga escolar e orientadora educacional, observo que o período de férias é especialmente sensível para a formação de hábitos digitais. O recesso costuma ultrapassar 30 dias e, nem sempre, há opções de lazer disponíveis diariamente. Nesse contexto, jogos, redes sociais e plataformas de streaming passam a ocupar o espaço do brincar, da convivência e até do tédio, elemento essencial para o desenvolvimento infantil. 

Os impactos do uso excessivo de telas aparecem de diferentes formas. Irritabilidade, ansiedade, impulsividade, dificuldade de concentração, alterações no sono e redução das interações sociais são sinais recorrentes. No ambiente escolar, após o retorno das férias, é comum notar aumento de conflitos entre os alunos, maior dificuldade de foco e até comportamentos de isolamento social. 

Esses efeitos estão diretamente ligados à diminuição das interações presenciais e ao excesso de estímulos digitais, que dificultam a autorregulação emocional e o engajamento em atividades que exigem atenção sustentada. 

Em crianças menores, especialmente aquelas em fase de alfabetização ou consolidação da linguagem, os prejuízos podem ser ainda mais significativos. O uso prolongado de telas reduz as trocas verbais, empobrece o repertório linguístico e limita experiências fundamentais para o desenvolvimento da comunicação. A linguagem se constrói na interação, no diálogo, na escuta e na presença, elementos que nenhuma tela é capaz de substituir. 

 

A falsa sensação de segurança

Um ponto que considero especialmente delicado é a falsa sensação de segurança que as telas oferecem aos adultos. Quando a criança está diante de um dispositivo, temos a impressão de que ela está protegida, parada e sob controle. No entanto, o ambiente digital apresenta riscos que nem sempre são visíveis: acesso a conteúdos inadequados, excesso de publicidade, estímulos à comparação estética e impactos diretos à saúde mental. 

 Nesse sentido, tanto o tempo de exposição quanto o tipo de conteúdo acessado merecem atenção. Pouco tempo diante de conteúdos violentos ou sexualizados pode gerar impactos profundos, enquanto o uso prolongado, ou seja, acima de quatro horas diárias, a depender da faixa etária, amplia significativamente os prejuízos ao desenvolvimento infantil e juvenil. 

 

O papel dos adultos

Dificuldade de lidar com o tédio, agitação, alterações no sono e na alimentação, redução do vocabulário, ansiedade e irritação são sinais importantes de alerta. Quando esses comportamentos aparecem, é fundamental que os adultos revisitem a forma como as telas estão sendo utilizadas. 

Acredito que o maior erro dos responsáveis seja liberar dispositivos sem monitoramento e sem limites claros. Educar para o uso consciente da tecnologia exige diálogo, orientação e mediação constante. Não se trata de proibir ou afastar totalmente as crianças das telas, mas de ensinar como, quando e por que usá-las. 

Esse processo demanda tempo e coerência. Não é possível exigir interação, presença e menos tempo de tela se o adulto também está constantemente conectado. As crianças aprendem, sobretudo, pelo exemplo. 

 

Limites que organizam e educam

As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria ajudam a nortear esse equilíbrio: nenhuma exposição para crianças menores de dois anos; até uma hora diária entre dois e cinco anos; até duas horas entre seis e dez anos; e até três horas para adolescentes. Ainda assim, mais importante do que o número exato de horas é a organização da rotina. 

Definir horários, estabelecer combinados claros e reduzir gradualmente o tempo de uso são estratégias que ajudam a evitar conflitos. Criar zonas livres de telas, como quartos, mesa das refeições e banheiro, favorece o sono, a alimentação e as interações familiares, aspectos fundamentais para o desenvolvimento saudável. 

 

O valor do brincar e do ócio

Em um mundo que ocupa constantemente as crianças, é preciso resgatar o valor do brincar livre e do tédio. É nesse espaço não estruturado que a criatividade emerge, que a criança inventa, ressignifica objetos e aprende a lidar com o tempo de forma saudável. 

Mesmo em famílias em que os responsáveis trabalham fora, é possível cuidar desse equilíbrio. Alinhar combinados com outros cuidadores, reforçar o monitoramento e dedicar tempo de qualidade à criança nos momentos de convivência fazem uma diferença significativa. 

As férias são uma oportunidade preciosa de fortalecimento dos vínculos familiares e do desenvolvimento emocional. As telas podem estar presentes, mas não devem ocupar o centro da experiência infantil. Defendo que sejam sempre o último recurso e nunca a principal ocupação das crianças nesse período. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Dívida adulta com a infância-Sergio Ferrari IN BRASI 247


Unicef alerta que crianças que vivem em zonas de conflito em todo o mundo continuam sofrendo com a pobreza extrema (Foto: Unicef/ Aaref Watad)

PALESTINE

VÍDEO POSTADO POR MIM  PORX LOST IN PIT

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EMBORA TENHA MEUS SENÕES QUANTO A UNICEF, FACE EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E AMIGOS QUE A CORTEJA,VALE PENSAR O QUE DIZ O AUTOR Sergio Ferrari.

O TEMA É ANTIQUÍSSÍMO ,MAS VOLTA A SE PONDERAR.

ALIÁS O TEMA DA INFÂNCIA É O FOCO NO ADULTO E SEUS ENTORNOS,NÃO SE  SEPARA UM DO OUTRO QUANDO PENSAMOS SOCIAL E POLITICAMENTE O TEMA.

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Sergio Ferrari.

https://www.brasil247.com/blog/divida-adulta-com-a-infancia


A crise da infância questiona a consciência planetária. Uma em cada cinco crianças no mundo sofre com a pobreza extrema e a tendência é isso piorar

Atualmente, em países de baixa renda, mais de 412 milhões de crianças sobrevivem com menos de 3 dólares por dia. No entanto, afirma o Relatório sobre o Estado das Crianças no Mundo, publicado pela UNICEF há apenas algumas semanas, "a pobreza infantil não se limita às regiões mais pobres do mundo". Na verdade, também afeta países de renda média e alta. De acordo com o relatório, se uma linha de pobreza mais realista fosse aplicada nesses países —por exemplo, 8,30 dólares por dia em vez de 3 dólares—-, o número de crianças em "pobreza monetária" no mundo subiria para dois em cada três, aproximadamente 1,4 bilhão.

"Em um momento em que os gastos militares atingiram a cifra exorbitante de 272 bilhões de dólares", enfatizam os autores do estudo da UNICEF, "centenas de milhões de crianças continuam sem bens básicos como educação, água limpa e moradia adequada." (https://www.unicef.org/es/media/176341/file/SOWC-2025-executive-summary-ES.pdf).

A dívida e seu impacto letal na infância

Muitos países em desenvolvimento enfrentam uma situação econômica complexa, cujo resultado quase sempre é a deterioração de seu crescimento, o que tem impacto direto nos programas de redução da pobreza e nos serviços públicos para crianças. Essa deterioração é agravada por cortes substanciais na ajuda ao desenvolvimento. Até 2030, essa fórmula letal pode causar a morte de cerca de 4,5 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade. A ajuda planejada para a educação em 2026 será 25% menor do que em 2025, sem dúvida uma ameaça de desescolarização para 6 milhões de crianças. Essa realidade é agravada pelo impacto direto da dívida externa. De fato, quarenta e cinco dos países em desenvolvimento destinam mais recursos ao pagamento de juros dessa dívida do que ao orçamento de saúde.

"Os números atualizados sobre a situação das crianças são tão dramáticos quanto alarmantes", diz o teólogo Beat Wehrle, especialista suíço em direitos das crianças e membro do conselho diretor da ONG Terre des Hommes, na Alemanha, uma das mais dinâmicas do setor da infância. Mas, Wehrle argumenta, esses números não são inocentes; pelo contrário, "eles refletem o ataque sistemático neoliberal às políticas públicas." Com longa experiência trabalhando em vários países latino-americanos, Wehrle explica que essa agressão neoliberal se manifesta "no aumento significativo do nível de endividamento não apenas no nível estatal, mas também nas economias familiares". E com consequências dramáticas, já que a lógica neoliberal reduz a oferta de políticas públicas de educação e saúde. Essa redução, enfatizou Wehrle, também é agravada "pela queda injustificável dos recursos alocados à cooperação internacional, cujo exemplo mais significativo é a desintegração total da USAid, no início de 2025". E aponta que a mesma tendência também é percebida na maioria dos países europeus, como pode ser visto ao analisar a cooperação para o desenvolvimento e a ajuda humanitária no Velho Mundo.

As consequências dramáticas desses cortes, que já foram sentidas com tanta intensidade em 2025, serão refletidas no próximo Relatório UNICEF 2026. "É certo que a já dramática situação global que as crianças estão vivenciando tenderá a piorar ainda mais", conclui Wehrle.

Crianças marginalizadas

As maiores taxas de pobreza infantil no mundo estão entre as crianças mais novas. Em 2024, 22,3% das crianças com menos de quatro anos viviam em condições de extrema pobreza financeira, quase o dobro da porcentagem de jovens entre quinze e dezessete anos de idade.

Além das consequências do endividamento e da distorção das políticas nacionais, há outros fatores que não são menos críticos a serem levados em conta. Por exemplo, o nível de escolaridade dos dependentes de suas respectivas famílias.

Nas famílias onde os líderes familiares não receberam educação básica, a taxa de pobreza extrema é de 32,9%. Em famílias onde o chefe de família concluiu o ensino superior, essa taxa é de 5,8%.

Significativamente, cerca de 79% das crianças em extrema pobreza vivem em comunidades rurais. No entanto, em áreas urbanas, o nível de pobreza em assentamentos informais e favelas é muito maior que a média.

Crianças com deficiência têm muito mais probabilidade de sofrer com a pobreza porque os custos de saúde são muito mais altos para suas famílias. Por outro lado, cuidar dessas crianças geralmente impede que seus pais ou responsáveis trabalhem fora de casa. Crianças deslocadas ou refugiadas, cujos números muitas vezes são subestimados, correm maior risco de cair na pobreza não apenas durante o trânsito, mas também desde o momento em que chegam ao novo destino. Estudos feitos na Colômbia, no Líbano e Uganda apontam altas taxas de pobreza entre populações deslocadas.

Crianças indígenas também apresentam taxas de pobreza muito mais altas. Nos vinte e três países que ratificaram a Convenção dos povos indígenas e tribais, em 2024, 18,7% dessas comunidades viviam em extrema pobreza monetária, em comparação com 9,3% da população geral.

Não menos significativo é o impacto das guerras e outras situações de conflito. Metade das crianças em contextos de conflito (e a fragilidade deles resultante) sofre de pobreza extrema. Em contextos não afetados, apenas 11,4%.

Guerras como fatores agravantes

Ao redor do mundo, há um aumento extraordinário nos conflitos armados: 2024 e 2025 registraram o maior número de países envolvidos em conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Em 2024, cerca de 19% das crianças viviam em zonas de conflito, uma porcentagem quase o dobro do que havia em meados da década de 1990. Em 2024, as Nações Unidas identificaram 41.370 casos de violações graves contra crianças em zonas de conflito, um aumento de 25% em comparação com 2023. A negação de acesso humanitário deixa as crianças em sério risco de abuso, exploração, doenças e fome.

Entre 2014 e 2024, a taxa de pobreza monetária extrema em contextos de fragilidade e conflito aumentou de 46% para 50,2%; fora dessas áreas de conflito, a taxa caiu de 19,9% para 11,4%. Em outras palavras, a metade das crianças em áreas de conflito; e apenas um em cada nove em áreas sem conflito.

Os conflitos geram pobreza porque minam a estabilidade econômica, destroem infraestrutura e interrompem serviços públicos, como água, educação e fornecimento de energia. As interrupções na educação violam o direito das crianças de aprender e prosperar e, consequentemente, corroem tanto o potencial individual quanto a prosperidade conjunta.

Segundo Wehrle, os dados analisados pela UNICEF revelam duas realidades particularmente preocupantes. Por um lado, a redução do investimento público na primeira infância e, por outro, o aumento significativo no número de crianças expostas a situações de conflito armado e violência. A confluência desses dois fatores, argumenta Wehrle, converte a infância numa vítima privilegiada da irracionalidade adulta.

A infância como ator de mudança

Embora o estudo da UNICEF ofereça um retrato bastante claro da realidade dramática da infância, Wehrle observa que é "notável que continue sendo um relatório sobre crianças", já que a questão da participação das crianças, adolescentes e jovens aparece apenas marginalmente no documento. Dessa forma, tanto a produção dessa realidade dramática, quanto a reflexão sobre ela, ficam sob responsabilidade apenas dos adultos". Isso é, sem dúvida, um fato lamentável porque, como argumenta esse especialista suíço, as crianças são ou deveriam ser muito mais do que vítimas: elas também devem ser consideradas sujeitas com direitos e agentes de mudança. A falta de uma perspectiva direta e de participação concreta das crianças na definição de prioridades em políticas públicas é algo que precisa ser urgentemente questionado e resolvido. Se a redução na participação da sociedade civil já é grave em nível global, segundo Wehrle, "a ausência das vozes e das ações das crianças, adolescentes e jovens é um erro ainda mais significativo". Portanto, ele insiste, "nada sobre a infância deve ser aceito sem a participação direta das próprias crianças". Embora o panorama global da infância hoje seja difícil, complexo e pouco esperançoso, existem, no entanto, segundo Wehrle, inúmeras experiências positivas de afirmação dos direitos de crianças, adolescentes e jovens em nível local e em todo o mundo. Essas experiências, conclui, precisam ser conectadas de maneiras mais significativas para que se tornem uma voz cada vez mais impossível de ignorar.

Tradução: Rose Lima.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247